Palavras sobre TARJA PRETA

Sempre fui de combater o escuro com escuro, por exemplo: quando criança sempre temi a falta de luz, principalmente na hora de dormir. Então, eu logo me encarregava de tapar todo o rosto com lençol “protegendo-me”, assim, do escuro e além-escuro. Quase nunca dava certo porque na verdade eu figurava monstros, coisas desagradáveis e por aí vai; seres imagináveis que a minha cabeça, fértil, de criança boba, sempre pusera para fora. A partir do momento em que finquei os olhos na cama e disse a mim mesmo que nada ia além da minha projeção ficcional, superei e dormi, parcialmente em paz. É claro que a coisa não funciona tão fácil assim, volta e meia, sou ainda surpreendido aos gritos e figurações de sustos perto de mim, dessa vez, de olhos abertos. Talvez seja somente sonho. Como também possa ser a propulsão das minhas inquietações durante o dia.

Já com as inquietações, nunca foi profícuo de minha parte cobrir todo o rosto. Sou acometido e bombardeado a todos os instantes por esse medo do escuro e enigmático que é viver. Também bocejo durante várias vezes ao dia, também percebo que tudo parece estranho e escuro em vários momentos, também deixo o vestido cair, também quase me quebro, de frente pro espelho, com esses meus olhos que beiram o chão e essa vontade louca e absurdamente doentia de me perguntar todos os dias: “sou um monstro ou isto é ser uma pessoa?”

Ver-te passeando no escuro, indagando-se sobre as mais lindas dúvidas diante do espelho, me fez mergulhar, ficar alguns minutos respirando com dificuldade embaixo d’água e depois ter retornado à superfície num impulso-suspiro. Tenho essas manias de reparar milimetricamente no outro que também é inquieto, assim como eu. Voz firme, leve, soante, certeira! passeios precisos e presentes em meio ao caos e escuro que, apesar de tudo, vibravam! Ter te visto como parte primeira dos “3 no escuro” abriu-me o apetite para as novas e incompletas perguntas acerca do existir e vibrar!

Daqui, te abraço, ajudo-te a se vestir, te dou um garfo que tenha as pontas protegidas com borracha, nada de ferimento além do que é viver, nada de furos, além dos já sentidos todos os dias, nada de bocejos indicando sono, mesmo com o dia de sol lindo lá fora. Desde que não sejam reais, ou reais somente em cena do espetáculo forte e real que está quase pronto pra os muitos, que ainda não viram, relacionar as suas ações as ações alheias e no final, sorrir, engasgar (como eu) ou chorar.


p.s. daqui também, os meus aplausos! Obrigado por mais um momento de reflexão e conhecimento!


Magno Almeida
Graduando em Letras pela UFAL
*Pós ensaio aberto.

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